O mangostão (Garcinia mangostana L.),
família Clusiaceae, é considerada a fruta mais saborosa do tropico
asiático. Foi introduzido no Brasil em 1935 e atualmente é cultivado
principalmente nos estados do Para e Bahia, numa área estimada de 350 ha
com uma produção de 300 t. O período de frutificação do mangostanzeiro
varia de acordo com as condições climáticas e, no estado do Pará, o
principal período de colheita estende-se de janeiro a maio e uma
colheita menor ocorre em agosto e setembro. Na Bahia a safra principal é
geralmente em março e abril e outra colheita acontece em agosto. Poucas
pragas têm sido encontradas em pomares de mangostão e os problemas mais
comuns são causados por ácaros, tripes (Thrips sp. ) e abelha
arapuá (Trigona spinipes) as quais causam danos na casca do fruto
dificultando a colheita. A murcha do mangostanzeiro, doença ainda não
encontrada em pomares de mangostão de outros paises, tem sido observada
somente em plantas adultas na região sul do estado da Bahia, mas o
agente causal ainda não foi identificado. Estouro de vasos, um distúrbio
fisiológico no pericarpo do fruto e polpa translúcida são comuns nos
frutos em pomares brasileiros. Os frutos são colhidos manualmente,
limpos, classificados e colocados em caixas de papelão com dimensões de
21x 21,5 x 6,5 cm as quais contem de 9 a 20 frutos e são vendidos
principalmente em grandes centros urbanos. O mangostão apresenta média
de 32,5% de polpa, 18,17% ºBrix e 1% de acidez. A casca apresenta um
grupo de substancias conhecidas como xantonas as quais são utilizadas
para produtos farmacêuticos.
1-Introdução
O mangostão, originário do arquipélago
Malaio, é considerado a fruta mais saborosa do trópico asiático. No
Brasil, foi introduzido definitivamente por volta de 1935, na Bahia, e
em 1942 no Pará (Donadio et al., 1998; Sacramento, 2001).
No Brasil, o mangostão é cultivado,
principalmente, nos Estados do Pará e da Bahia e, em pequena escala, no
Espírito Santo e São Paulo. No Pará, a cultura do mangostão está
concentrada em área plantada de cerca de 250 hectares, principalmente
nos municípios de Santa Isabel do Pará, Benevides, Castanhal, Marituba,
Santo Antônio do Tauá e, em menor escala, em Tomé-Açu. Aproximadamente
50% fazem consócio com outras espécies frutíferas, principalmente açaí,
cupuaçu, banana e laranja. Pequenos pomares são também encontrados nos
demais Estados da Amazônia, porém sem expressão econômica. Na Bahia, a
maior concentração de mangostanzeiros localiza-se no município de Una,
em uma área de aproximadamente 80 hectares, sendo cerca de 20 ha
distribuídos entre outros municípios do sul da Bahia (Taperoá, Ituberá,
Uruçuca, Nilo Peçanha e Tancredo Neves). No Espírito Santo, estima-se
uma área de 10 ha nos municípios de Linhares e Castelo, com poucas
plantas em estádio de produção. Em São Paulo, no município de Cardoso,
foram plantados, em 1995, mais de 10 ha de mangostanzeiros enxertados.
A produção brasileira de mangostão tem
variado em função de novas áreas implantadas e da alternância de
produção apresentada por essa espécie. Nos anos de 1999, 2000 e 2001, em
Una, foram comercializadas, respectivamente, 6.000, 10.000 e 60.000
caixas de 1,4 kg de frutos (Sacramento, 2001). No Estado do Pará, em
2003, foram comercializadas mais de 180 toneladas de frutos de
mangostão.
2. Sistemática, descrição botânica e variedades
2.1 - Sistemática
O mangostanzeiro pertence à família
Clusiaceae, que engloba aproximadamente 1.000 espécies, subordinadas a
47 gêneros, dispersos em regiões tropicais e subtropicais do mundo
(Barroso et al., 2002; Brummit, 1992; Cronquist, 1981). No Brasil, essa
família está representada por cerca de 21 gêneros e 183 espécies,
distribuídas nas diferentes regiões do País (Barroso et al., 2002), das
quais se destacam o abricoteiro (Mammea americana L.), o
bacurizeiro (Platonia insignis Mart.), o bacuriparizeiro (Rheedia
macrophylla (Mart.) Pl. et Tr.), o bacuparizeiro (Rheedia
gardneriana Miers. ex. Pl. et Tr.) e, de forma mais secundária, o
bacuriparizeiro liso (Rheedia brasiliensis (Mart.) Pl. et. Tr.) e
o bacurizinho (Rhedia acuminata (R. et. Tr.) Pl.et.Tr.). O
abricoteiro é de origem antilhana, e as demais espécies são nativas do
Brasil. Dessas, somente o mangostão é cultivado comercialmente, sendo as
outras espécies ainda exploradas em escala extrativista.
Outra espécie do mesmo táxon genérico (Garcinia
cochinchinensis Choisy.), conhecida como falso-mangostão, garcínia
ou mangostão-amarelo, sem nenhuma expressão econômica, é encontrada em
pomares domésticos no Brasil e tem sido freqüentemente confundida com o
mangostão (G. mangostana L.), em particular na fase jovem.
No Brasil, é conhecido como "mangostão"
ou "mangustão", entretanto os produtores de Una utilizam comercialmente o
nome "mangostin" (aportuguesamento do inglês "mangosteen"). Os
produtores do Pará também já utilizaram essa denominação, mas, nos
últimos anos, têm adotado o nome inglês ¨mangosteen¨ para
comercialização dos frutos que se destinam aos mercados das regiões
sudeste e centro-oeste do Brasil.
O fruto é uma baga subglobosa, de 4 a 9
cm de diâmetro transversal e 3,6 a 6,5 cm de altura e peso de 30 a 240
g, com cálice persistente e cicatriz do estigma lobada, pericarpo
purpúreo, duro e grosso, de espessura entre 0,5 a 1,0 cm, o qual contém
resina amarela. A parte comestível é formada por quatro a oito segmentos
carnosos brancos translúcidos e com sabor bastante delicado. O número
de sementes por fruto varia de zero a três, sendo, mais freqüentemente,
encontrados frutos com 1 semente.
As sementes de mangostão são apomíticas,
ou seja, na sua formação, não há envolvimento de processo sexual, são
de formato variável e apresentam comprimento entre 1,7 cm e 2,0 cm
(Enoch, 1979). Quando o fruto está completamente maduro, o teor de água
das sementes ainda é bastante elevado, geralmente entre 57,7% e 67,4%. O
peso da semente varia entre 0,31 g e 1,8 g, com média de 0,87 g.
3-Ecologia
Nos diversos países produtores, o
mangostanzeiro é cultivado em áreas onde o clima é quente e úmido, com
chuvas bem distribuídas durante o ano, sendo as áreas potenciais de
cultivo do mangostão localizadas até a latitude de 18º em locais
quentes, livres de geadas. Essa frutífera pode ser cultivada em locais
acima de 1.000 mm, mas o crescimento é melhor em altitudes próximas ao
nível do mar.
A temperatura ideal, para o cultivo,
situa-se entre 25ºC e 30ºC, com umidade relativa acima de 80%.
Temperaturas abaixo de 5ºC e acima de 38ºC podem ser letais e, abaixo de
20ºC, podem retardar o crescimento do mangostanzeiro. Como planta de
trópico úmido, essa frutífera requer precipitação acima de 1.270 mm bem
distribuída.
Em Una-BA (latitude 15º 17 S e
longitude 39º 4 W, 50 m acima do nível do mar.), onde se concentra a
maior área produtora de mangostão da Bahia, a temperatura média é de
23,6ºC, máxima média de 28,3ºC e mínima média de 20,3ºC, com umidade
relativa de 85,1% e precipitação anual de 1.800 mm, bem distribuída.
No Pará, os municípios produtores de
mangostão (Benevides, Castanhal, Santa Isabel do Pará, Marituba e Santo
Antônio do Tauá) estão situados próximos a Belém, capital do estado,
onde a temperatura média é de 25,9ºC, precipitação anual de 2.761 mm. De
acordo com Muller et al. (1991), essas regiões apresentam dois períodos
distintos: um período mais chuvoso, que vai da segunda quinzena de
dezembro a junho, e outro, menos chuvoso, de julho à primeira quinzena
de dezembro, caracterizado pela ocorrência de chuvas de grande
intensidade, mas de curta duração, com períodos mais secos entre outubro
e novembro.
Com relação ao tipo de solo, o mangostão
adapta-se bem em solos profundos argilo-arenosos, bem drenados e,
preferivelmente, com alto teor de matéria orgânica. Em Una (BA), o
mangostão é cultivado em Latossolos Vermelho-Amarelos, considerados de
baixa fertilidade natural. No Estado do Pará, os plantios estão
estabelecidos em Latossolo Amarelo.
3.1 - Aspectos fenológicos da floração e frutificação
A época de florescimento do
mangostanzeiro varia de acordo com as condições climáticas, podendo ser
concentrada em um ou mais períodos durante o ano. O mangostanzeiro
apresenta tendência de florescimento em anos alternados, e a
frutificação varia de planta para planta. As plantas florescem após o
crescimento de fluxos vegetativos e principalmente após um período de
estiagem. O florescimento pode ocorrer duas vezes ao ano, dependendo das
condições climáticas, manejo e do número de fluxos vegetativos. O
período entre a iniciação floral e a antese é de 25 dias e da antese até
o fruto maduro 100 a 120 dias (Yaacob e Tindall, 1995).
No Pará, em particular na microrregião
Belém, onde se concentram os principais pomares de mangostanzeiros,
quando a precipitação é normal, ocorre uma pequena floração, geralmente,
no período de junho a agosto, e que é responsável pela pequena safra
verificada entre outubro e dezembro. A safra principal ocorre entre
janeiro e maio, e é resultante da floração que ocorre entre setembro a
janeiro. Resultados referentes a dez safras consecutivas evidenciaram
que, aproximadamente, 80% da produção de mangostão, na microrregião
Belém, se verifica no período de janeiro a junho. A "safrinha", que
ocorre no segundo semestre, é responsável por 20% da produção (Figura 1
Ver figura em arquivos relacionados mais abaixo).
Em levantamento efetuado na área
produtora do município de Una-BA, verificou-se que, nos anos de 1999 e
2000, as maiores produções ocorreram nos meses de março e abril e, no
ano de 2001, além desses dois meses, houve um pico de produção em agosto
(Sacramento, 2001) (Figura 2 Ver figura em arquivos relacionados mais
abaixo).
4-Propagação
Nos principais países produtores de
mangostão, a formação de mudas é feita sexuadamente, considerando-se que
as sementes dessa espécie são apomíticas e, portanto, as plantas não
apresentam variabilidade genética. Quanto à germinação, as sementes
perdem rapidamente a viabilidade e não podem ser conservadas pelos
métodos convencionais de armazenamento, que têm como pressupostos
básicos a redução do teor de água e o armazenamento em baixas
temperaturas. Alguns procedimentos têm sido indicados para manter a
viabilidade das sementes por períodos que possibilitem o transporte das
sementes de um local para outro. Normalmente, é recomendada a
estratificação das sementes em substrato umedecido com água. O substrato
para estratificação das sementes pode ser fibra de coco, pó de serragem
curtida ou vermiculita. Alternativamente, as sementes podem ser
conservadas dentro dos frutos ou em sacos de polietileno por períodos de
até 35 dias (Müller et al., 1991). Em condições favoráveis de
temperatura e umidade, a quase totalidade das sementes germina entre 10 e
20 dias após a semeadura (Müller et al., 1995). (Figura 3 Ver figura
em arquivos relacionados mais abaixo)
Após o transplantio, as mudas devem ser
mantidas em local sombreado, com 50% de luminosidade. Os tratos
culturais do viveiro consistem na manutenção da umidade por meio de
irrigações e na eliminação periódica de plantas daninhas que crescem no
substrato.
Müller et al. (1989) recomendam
adubações foliares com produtos que tenham na formulação macro e
micronutrientes e a aplicação preventiva, a cada dois meses, de
fungicidas à base de cobre (3 g.L-1 de água), mais Mancozeb
(2 g.L-1), para controlar eventuais doenças que possam
ocorrer nos viveiros.
Quando bem manejada, após dois anos de
viveiro, a muda apresenta 30 a 40 cm de altura e está pronta para o
plantio definitivo ou para ser utilizada como porta-enxerto.
O mangostanzeiro pode ser propagado por
enxertia de garfagem no topo em fenda cheia, embora os métodos de
enxertia em fenda lateral e de encostia também possam ser utilizados. No
processo de enxertia, são usadas, como porta-enxertos, mudas de
mangostão, com dois anos de idade. Os garfos ou enxertos devem ser
retirados de ramos ortotrópicos (centrais), pois os ramos laterais
formam plantas com crescimento lateral (plagiotropia). Após o processo
de enxertia, o garfo e parte do porta-enxerto devem ser envolvidos por
um saco transparente (câmara úmida), a fim de evitar a evaporação da
água e o ressecamento do enxerto. As mudas recém-enxertadas devem ser
mantidas em local sombreado. Embora a propagação assexuada reduza em até
dois anos o período vegetativo, na prática, tem sido observado que
plantas propagadas por semente apresentam crescimento mais vigoroso e,
quando adultas, suplantam em produção aquelas originadas de mudas
enxertadas. Desse modo, a enxertia praticamente não tem sido utilizada
na implantação de pomares comerciais. Nos outros países produtores,
também não se utiliza a propagação vegetativa na formação de pomares
comerciais.
5-Implantação do pomar
No preparo da área para plantio de mangostão,
a maior preocupação tem sido a utilização de consórcio com outras
plantas que possam, ao mesmo tempo, fornecer sombra, necessária ao seu
desenvolvimento inicial, e também proporcionar alguma renda durante o
seu período vegetativo (Sacramento e Coelho Jr., 2005).
Em termos de sombra, a bananeira
constitui uma excelente alternativa para o desenvolvimento durante os
quatro primeiros anos do mangostanzeiro. Outras espécies de produção
precoce (pimenteiras, mamoeiros, araçazeiros, pitangueiras) também podem
ser utilizadas. Não é aconselhável o consórcio do mangostãozeiro com
espécies perenes que possam causar competição durante a fase produtiva,
pois essa frutífera produz melhor a pleno sol. No Brasil, o mangostão
tem sido consorciado com outros cultivos tropicais em sistemas
agroflorestais, como rambotã, cupuaçu, graviola, mas embora
ecologicamente haja benefícios pela proteção do solo, fisiologicamente
ocorre competição de copas por luz, causando baixa frutificação e
produção. Mangostanzeiros implantados em cacauais também não
apresentaram bom desenvolvimento. Plantas da família Arecaceae
(açaizeiro, pupunheira, coqueiro) possuem um sistema radicular muito
agressivo e, quando plantadas perto do mangostanzeiro, afetam
severamente o seu crescimento e, por isso, não são recomendadas como
consórcio (Sacramento, 2001).
Os espaçamentos utilizados para o
cultivo do mangostão, no Brasil, variam de 6 x 6 a 10 x 10 m, porém, em
espaçamentos menores, observa-se competição entre copas a partir do 12º
ano de plantio.
6 - Tratos culturais
6.1 Adubação
Na região sul da Bahia, a maioria dos
produtores não faz uso de análise de solo para adubação do
mangostanzeiro, e, desse modo, cada produtor aplica diferentes tipos e
quantidades de adubo, verificando-se, entretanto, grande preocupação com
aporte de matéria orgânica através de esterco bovino, geralmente
incorporado em valas abertas na projeção da copa.
Em áreas de produção no Estado do Pará,
recomendam-se aplicações de 200 g/planta de cloreto de potássio, no
início da floração, e mais duas aplicações com intervalos de 45 dias,
com objetivo de reduzir o sintoma fisiológico conhecido como "estouro
dos vasos lactíferos" ou "empedramento de frutos". Após o término da
safra, recomenda-se a aplicação de 300 g de NPK, formulação 10-28-20 e
mais 40 litros de cama de aviário por planta adulta (Müller, C.H.
informações pessoais).
Adubações desequilibradas podem causar
sérios problemas no desenvolvimento do mangostanzeiro. Nas regiões
produtoras do Pará e da Bahia, têm sido verificados casos de redução
acentuada do limbo foliar e do comprimento do entrenó das plantas devido
à nutrição desbalanceada, provavelmente, entre zinco e ferro. Na Bahia,
tem sido verificado grande percentual de frutos com problemas de
empedramento, os quais podem ser causados por deficiência de potássio.
6.2-Irrigação
Nas regiões brasileiras, onde o
mangostão é cultivado comercialmente, a quantidade e a distribuição das
chuvas têm sido suficientes para a produção satisfatória de frutos,
entretanto alguns produtores possuem sistemas de irrigação para
utilização em casos de ocorrência de estiagem prolongada. Os sistemas de
irrigação localizada (microaspersão e gotejamento) proporcionam a
aplicação da água na área de concentração das raízes, em pequenas
quantidades e alta freqüência, sendo, portanto, os mais apropriados para
o cultivo do mangostanzeiro.
6.3-Poda
O mangostanzeiro é conduzido
praticamente sem poda até o 3º ano de plantio. A partir daí, efetua-se a
eliminação dos ramos próximos ao solo, para facilitar os tratos
culturais e, também, para evitar que estes sirvam de acesso para ratos e
outros roedores, os quais danificam os frutos. Em plantas adultas, tem
sido efetuada eliminação de ramos finos, doentes e secos no interior da
copa. Alguns produtores eliminam ramos alternados em plantas adultas
(com mais de 20 anos) para favorecer a aeração e a luminosidade, e
estimular a frutificação no interior da copa. Outros produtores podam o
ápice da planta para permitir maior luminosidade no interior da copa,
mas essa prática não tem mostrado resultados satisfatórios.
6.4 - Raleamento de frutos
A maior frutificação do mangostanzeiro
ocorre nos ápices dos ramos expostos à luminosidade. Geralmente cada
ápice de ramo apresenta apenas um fruto, entretanto podem ocorrer dois
ou mais frutos por ápice ou mesmo em gemas perto do ápice, causando
competição e gerando frutos de menor tamanho. Neste caso, o produtor
deve manter somente o fruto localizado no centro. O raleamento tem como
objetivo reduzir o número de frutos na árvore para estimular a produção
de frutos maiores e com peso médio de 130 a 140 gramas, os quais obtêm
melhores preços no mercado. Nesse caso, a eliminação do excesso de
frutos deve ser feita logo após a antese, pois, a partir de determinado
estágio de desenvolvimento do fruto, não há nenhuma vantagem na sua
eliminação.
7 - Pragas, doenças e danos fisiológicos
No Brasil, são observados os seguintes
problemas com pragas, doenças e danos fisiológicos:
7.1-Pragas
Abelha-arapuá ou abelha-cachorro (Trigona spinipes)
Essas abelhas danificam os botões
florais e o fruto em crescimento, causando ferimentos na sua superfície.
Dessas feridas, exsuda uma resina amarela, conferindo ao fruto um
aspecto rugoso Os danos causados pelas abelhas-arapuá são externos e não
afetam a parte comestível dos frutos, entretanto estes ficam com o
aspecto visual comprometido para o comércio em mercados mais exigentes. A
medida mais viável de controle dessa praga consiste na eliminação de
seus ninhos, num raio de 500 m do pomar, entretanto essa não é uma
prática de fácil execução.
Ácaros (Tetranichus sp.)
O mangostão atacado por ácaros apresenta,
externamente, aspecto ferruginoso. Embora não haja dano interno e não
seja limitante à comercialização, o aspecto ferruginoso dificulta a
colheita e a classificação dos frutos quanto ao estágio de maturação
(Figura 4 Ver figura em arquivos relacionados mais abaixo). Em outras
frutíferas, recomendam-se inspeções periódicas para detectar a presença
de ácaros, utilizando-se de uma lente de aumento (10x) e, em caso de
danos econômicos, tem sido utilizada a aplicação de acaricidas
específicos e enxofre. No caso do mangostãozeiro, apesar dos danos
causados, não tem sido aplicado nenhum produto para controle dos ácaros
e, especificamente no caso de aplicação do enxofre, pode comprometer a
qualidade do fruto, na comercialização, pelo odor desse produto químico.
Tripes (Thrips sp.)
O ataque de tripes ocorre em plantios do
Pará, sendo a maior freqüência no período de estiagem, e os sintomas
nos frutos atacados assemelham-se aos danos provocados por ácaros.
Além dessas pragas, em outros países
produtores, as formigas, cochonilhas, morcegos, ratos e nematóides têm
sido relatados como problemas no cultivo do mangostãozeiro.
7.2-Doenças
Murcha do mangostanzeiro
Na região sul da Bahia, a murcha do
mangostanzeiro tem se constituído no principal problema fitossanitário
dessa espécie frutífera. A doença tem sido detectada principalmente em
mangostãozeiros frutíferos, e as plantas atacadas caracterizam-se por
apresentar sintomas iniciais de amarelecimento, queda de folhas e
murchamento dos frutos. Em menos de 1 mês, após os primeiros sintomas, a
planta fica com aspecto de queimada e reduzida apenas a ramos secos
(Figura 5 Ver figura em arquivos relacionados mais abaixo). O ataque
tem sido observado em mangostãozeiros frutíferos nos municípios de Una,
Taperoá, Ituberá e Tancredo Neves, tanto em plantios comerciais como em
plantas isoladas. Amostras de raízes de plantas atacadas foram
analisadas na Clínica de Fitopatologia do Centro de Pesquisas do Cacau
(CEPEC/CEPLAC) e, de acordo com Bezerra et al. (2003), foram encontrados
diversos fungos associados às raízes de mangostãozeiros atacados: Mycoleptodiscus
sp, Lasiodiplodia theobromae, Ganoderma philippi, Fusarium solani,
Phytophthora sp., Beltrania e Cilindocladium sp., Xylaria sp., Cytospora
sp. e Rosellinia sp. Não há resultados conclusivos, estando o
problema em observação. Mudas plantadas nas covas onde houve morte do
mangostanzeiro, não apresentam nenhum sintoma da doença na fase
vegetativa.
Queima-do-fio (Koleroga noxia )
Essa doença tem sido relatada em
plantios de mangostão do Pará, não havendo registros de sua ocorrência
em plantios na Bahia. De acordo com Almeyda e Martin (1976), a
queima-do-fio é comum em mangostãozeiros cultivados em Porto Rico, sendo
encontrada também em cacaueiro, cafeeiro e seringueira, ocorrendo
quando há excesso de sombra e umidade. A fase vegetativa do fungo ocorre
como um filamento, que primeiro começa sobre os ramos menores. Quando o
fungo alcança as folhas, forma um filme esbranquiçado sobre o limbo e
então os ramos jovens são cobertos pelo filamento. Alguns frutos,
principalmente aqueles em desenvolvimento, são cobertos com o filamento e
secam. As folhas começam a perder o brilho, tornam-se marrom-claras e
eventualmente de coloração marrom-escuras ou mesmo negras. Neste
estágio, elas se desprendem do ramo, porém permanecem suspensas por um
fio semelhante à teia de aranha, o que constitui a melhor característica
para o seu diagnóstico (Figura 6 Ver figura em arquivos relacionados
mais abaixo). A doença ocorre principalmente em plantas de crescimento
vegetativo abundante, principalmente em áreas muito sombreadas e em
ambiente úmido. Esse fato sugere que o melhor remédio para a doença é a
remoção de parte do sombreamento e a drenagem do solo em volta da planta
para reduzir a umidade. Como medidas culturais, Nunes e Nunes (1995)
recomendam a eliminação e a queima das partes atacadas, seguidas de
pulverização semanal com fungicidas à base de oxicloreto de cobre (150g
i.a /100 l de água).
7.3-Danos fisiológicos
7.3.1 - Estouro de vasos lactíferos ou empedramento dos frutos
É uma desordem fisiológica que ocorre em
frutos em estágio de maturação e caracteriza-se por manchas
amarelo-claras e brilhantes na parte externa. No local da mancha
amarela, o pericarpo torna-se duro e, quando partido, apresenta
coloração marrom, ocorrendo internamente exsudação de uma resina amarela
conferindo sabor amargo ao arilo (Figura 7 Ver figura em arquivos
relacionados mais abaixo). Ramos e frutos afetados podem exsudar uma
resina amarela, que é responsável pela descoloração e mudança de sabor.
Esse problema tem ocorrido, principalmente, quando há excesso de chuvas
seguido por breves períodos de estiagem, porém o assunto carece de
pesquisa. Em épocas de muita ocorrência de chuvas, tais problemas podem
comprometer até 40% dos frutos produzidos.
7.3.2. - Frutos com polpa translúcida
Conforme Pankasemsuk el al. (1996),
frutos contendo polpa translúcida apresentam significativamente maior
conteúdo de água na casca (65%) e na polpa (82%) do que os frutos
normais (63 a 80%, respectivamente). Esses autores verificaram que a
gravidade específica dos frutos com polpa translúcida foi maior que 1, e
da polpa dos frutos normais foi menor que 1. Frutos com polpa
translúcida apresentaram concentração mais baixa de sólidos-solúveis e
percentagem de acidez titulável que os frutos normais. O problema de
polpa translúcida está relacionado com o excesso de umidade.
8- Floração e frutificação
Em condições de clima e solo favoráveis e
manejo adequado, o mangostanzeiro pode iniciar a frutificação a partir
de quatro anos (planta enxertada) ou seis anos (pé-franco), em ambos os
casos, após o plantio de mudas de 2 anos de idade.
A produção do mangostanzeiro varia, nos
diversos países produtores, em função das condições edafoclimáticas,
manejo e idade da planta, situando-se entre 200 e 2.000 frutos por
planta. No Brasil, são observados casos de produção de até 1.500 frutos
por árvore, entretanto, mais importante é a produção de frutos graúdos,
com peso médio acima de 100 g. Desse modo, em mangostanzeiros acima de
15 anos, em espaçamento de 10 x 10 metros, pode-se considerar como boa
produção 600 frutos por planta, o que resultaria em uma produtividade de
6 t.ha-1.
9 - Produção e colheita
A colheita representa um alto custo no
cultivo do mangostão, pois os frutos têm de ser colhidos manualmente e
no ponto ideal de maturação para atender às exigências do seleto mercado
consumidor. O mangostão atinge o ponto de colheita entre 120 e 150 dias
após a floração, e o período de colheita estende-se de 6 a 12 semanas.
O ponto de colheita baseia-se na
intensidade de coloração do pericarpo, e o estágio apropriado, para
comercialização em mercados distantes, é quando os frutos apresentam
pequenas manchas de cor rósea ou coloração rosa-clara (Figura 8 Ver
figura em arquivos relacionados mais abaixo). Frutos colhidos antes
desses estágios apresentam excessiva exsudação de látex no pedúnculo e
sabor inferior quando amadurecem. O fruto, quando maduro, apresenta
coloração arroxeada e, se não for colhido, desprende-se da árvore,
sofrendo danos ao cair ao solo. Desse modo, a colheita precisa ser
efetuada de duas a três vezes por semana.
Os frutos são colhidos manualmente, com o
pedúnculo e as sépalas e, devido à altura do mangostanzeiro, na maioria
das vezes, o colhedor, munido de um embornal preso ao corpo, necessita
subir na árvore ou utilizar escadas para colher os frutos localizados em
determinadas partes dos ramos. Frutos localizados nas partes mais altas
da copa são colhidos com o auxilio de uma cesta, tipo coador, com
capacidade para três frutos, presa na ponta de uma vara ou um tubo de
PVC de 100 mm onde os frutos deslizam e são coletados na parte terminal.
A colheita deve ser feita com o máximo
cuidado, pois queda de alturas superiores a 20 cm, em solo duro,
danifica o fruto, inviabilizando-o para comércio em mercados mais
exigentes.
10-Classificação, embalagem e armazenamento
10.1- Classificação e embalagem
Os frutos destinados à comercialização
nos grandes centros são previamente selecionados quanto aos aspectos de
maturidade, problemas de endurecimento, manchados e danificados. A
seguir, cada fruto é submetido a uma limpeza debaixo das sépalas,
utilizando-se de um pincel com cerdas de consistência média. Tal cuidado
visa à eliminação de formigas, aranhas e lagartas que, freqüentemente,
se alojam debaixo das sépalas. Em pomares sujeitos à poeira, os frutos
são limpos com pano umedecido.
Após a limpeza, os frutos são
classificados por tamanho, com base no diâmetro transversal, em classes
que variam de 9 a 20. Essa classificação é em função da quantidade de
frutos, de diâmetros semelhantes, que cabem, dispostos numa única
camada, em caixas de papelão de dimensões internas de 21 x 21,5 cm de
comprimento e 6,5 cm de altura, com quatro aberturas de 2,8 cm de
diâmetro (Figura 9 Ver figura em arquivos relacionados mais abaixo).
Tal classificação, cujas médias de diâmetro são apresentadas na Tabela 1
(Ver tabela em arquivos relacionados mais abaixo), é feita manualmente e
não leva em consideração o peso dos frutos. Os frutos com classificação
nove até 12 apresentam peso acima de 100 g e geralmente obtêm os
melhores preços no mercado. De acordo com levantamento efetuado por
Sacramento et al. (2003), em 17.951 caixas comercializadas nos anos de
2000 e 2001 foi verificado que 89,33% foram representadas pela soma dos
tipos 12 (33,08%), 14 (26,91%) 10 (16,58%) e 16 (12,76%).
Após a classificação, os frutos são
envolvidos individualmente com lenço de papel branco (Figura 9 Ver
figura em arquivos relacionados mais abaixo) e recebem um selo da
associação de produtores. A seguir, são acondicionados nas caixas, as
quais são carimbadas com identificação da classificação e o número do
produtor associado. As caixas são, então, amarradas em lotes de cinco ou
seis e enviadas para o aeroporto.
10.2-Armazenamento
Quando os frutos se destinam aos
mercados mais distantes ou para exportação, é importante reduzir a sua
taxa de respiração. O mangostão é um fruto climatérico e, quando
armazenado a 25ºC, produz alta taxa de etileno e baixa taxa de dióxido
de carbono. Yaacob e Tindall (1995) relatam que os frutos armazenados em
caixas de papelão à temperatura ambiente podem manter a qualidade por
mais de quatro semanas e que o armazenamento de frutos maduros a
temperaturas de 4ºC a 8ºC pode prolongar o tempo de prateleira. Esses
autores afirmam que a temperatura de 13ºC, entretanto, provou ser mais
favorável para armazenar e manter o padrão de qualidade, sendo a
temperatura ideal para o transporte dos frutos. Os frutos frescos podem
ser comercializados em prazos acima de 21 dias após a colheita, desde
que seja providenciada alguma forma de mantê-los armazenados a baixas
temperaturas.
11 - Comercialização
A maior parte dos frutos, produzidos
durante a safra na Bahia e no Pará, é geralmente enviada para
comercialização em São Paulo (CEAGESP), Rio de Janeiro e outras capitais
do Sudeste brasileiro. Na Bahia, os frutos são embarcados em avião, no
aeroporto de Ilhéus, duas vezes por semana.
Nas feiras e
supermercados regionais, são comercializados os frutos excedentes ou
muito maduros para transporte a longas distâncias e os frutos pequenos,
manchados ou também quando ocorre redução dos preços devido à
superprodução ou coincidência entre as safras da Bahia e Pará.
Os frutos produzidos no Pará são
comercializados principalmente no Estado de São Paulo. Devido a
distância entre os municípios produtores paraenses e a Capital paulista
e, também, à concentração da safra, quando os preços caem, o frete por
avião torna-se economicamente inviável. Quando isso acontece, o
mangostão paraense tem sido transportado junto com outras frutas (mamão,
coco e maracujá), em caminhões sem refrigeração. O gasto de 55 horas,
no trajeto entre os dois estados, tem feito com que os frutos cheguem ao
destino com a maturação relativamente adiantada, reduzindo, assim, o
seu tempo de comercialização.
Com relação ao mercado internacional, a
exportação de mangostão ainda é limitada devido aos frutos serem
hospedeiros de mosca-das-frutas. O comércio de mangostão tem sido feito
pelos produtores asiáticos para mercados europeus, onde não há exigência
de desinfestação para mosca-das-frutas. Os frutos classificados são,
então, congelados inteiros e embarcados para o local de destino. Na
Tailândia, foram desenvolvidas máquinas para cortar o pericarpo do
mangostão e, dependendo do tamanho do fruto, tais equipamentos têm a
capacidade para corte de 216 a 413 frutos por hora.
12 - Usos e composição
O mangostão é utilizado, principalmente,
como fruta fresca, apresentando, em média, 23,8% de polpa. Frutos
produzidos no município de Una foram analisados e apresentaram peso
médio de 117,40 g; 5,12 cm de comprimento, 5,82 cm de diâmetro, 5,95
gomos; 1,1 sementes, 32,5% de rendimento de polpa, 18,17 ºBrix, 18
açúcares solúveis totais, 1,00% de acidez e pH 2,56. Resultados
semelhantes, em termos de características físicas, foram obtidos em
frutos produzidos no Estado do Pará (Tabela 2 Ver tabela em arquivos
relacionados mais abaixo).
Para ser consumido, o fruto precisa ter o
seu pericarpo (de 0,5 a 1,0 cm de espessura) cortado cuidadosamente no
sentido transversal e a sua parte de cima removida, e os gomos brancos
são retirados com garfo ou com palito. Recomenda-se cuidado no corte do
fruto, para evitar que a resina contida na casca, que tem forte sabor
adstringente, entre em contato com a polpa (Sacramento, 2001).
Várias tentativas têm sido feitas para
preservar o fruto na forma de néctar, mas o mangostão é delicado, e o
seu sabor é facilmente perdido. O pericarpo contém pectina, tanino e
resina amarela. Na China extratos de pericarpo são usados para
bronzeamento e tingimento de couro (Yaacob e Tindall, 1995). O córtex do
fruto contém tanino, que é utilizado como tintura comercial. O pó do
córtex seco é, também, usado no cozimento como adstringente, em casos de
disenteria e diarréia crônica. Uma infusão feita das folhas tem sido
utilizada no tratamento de ferimentos. A madeira do tronco é de cor
marrom-escura e tem sido usada na construção de mobílias.
A casca do mangostão, que representa
quase 70% do peso do fruto, apresenta em sua composição uma classe de
substâncias, conhecida como xantonas, que tem despertado grande
interesse das indústrias de alimentos e farmacêutica. Essas substâncias
possuem alto poder antioxidante e agem no organismo humano, trazendo
benefícios à saúde. Na casca do mangostão, são encontradas oito
xantonas, as quais a "mangostinone" (Asai et al., 1995). Em decorrência
dessa característica, o mangostão vem sendo aproveitado integralmente, e
diversos produtos são encontrados envolvendo o suco de mangostão, no
qual o produto é obtido a partir da trituração do fruto com todas as
suas partes (casca, polpa e sementes). Outras formas envolvem a mistura
desse produto com os sucos do noni (Morinda citrifolia L.), do
goji (Lycium barbarum L.) e do açaí (Euterpe oleracea
Mart.). Tais frutos têm conquistado novos mercados, pelas suas supostas
propriedades nutracêuticas. Cápsulas contendo extrato da casca de
mangostão também são encontradas no mercado.
13- Metas a serem alcançadas pela pesquisa
O mangostanzeiro, embora propagado
sexuadamente, não apresenta variabilidade genética, devido a sua
formação apomítica. Desse modo, as pesquisas deveriam concentrar-se em
estudos que permitam o adensamento de plantas com a utilização de mudas
propagadas vegetativamente. A nutrição mineral equilibrada, além de
proporcionar maior desenvolvimento inicial das mudas, poderia reduzir o
índice de frutos não-comercializados por causa do tamanho e de problemas
com estouro de vasos. O raleamento permitiria a produção de frutos mais
graúdos, os quais obtêm melhor preço no mercado. Atualmente, o maior
problema do cultivo, na região sul da Bahia, é a
murcha-do-mangostanzeiro, que mata somente árvores produtivas, cujo
agente causal ainda não foi identificado. Aspectos relativos à
pós-colheita do mangostão já foram bem estudados em outros países
produtores, e as tecnologias podem ser utilizadas no Brasil. Entretanto,
estudos farmacológicos poderiam ser efetuados para viabilizar para uso
medicinal o aproveitamento da casca de frutos não-comercializados.